Archive for the 'Educação' Category

Ostentação de espírito

October 3, 2009

Às vezes acho que certas pessoas desandam. Estavam indo bem… Mas, de repente, perdem a sensibilidade em uma esquina… Trocam os pés pelas mãos, confundem a riqueza com a ostentação de espírito etc etc. Espíritos garbosos, envernizados e ofuscantes, com várias citações nas mangas de camisa. Mas, se é certo que é possível prever citações, o que dizer daqueles aos quais falta espontaneidade e, por se especializarem em impressionar as gatinhas, tornam-se repetidores de si próprios, com os mesmos causos sobre a vida de Rimbaud e as mesmas anedotas sobre Hitchcock?

Caso claro disso é que, nos meios acadêmicos (que desafortunadamente tenho de frequentar), é trivial que a busca do conhecimento há muito tenha sido confundida com uma erudição esnobe. O estudante impressionado deveria utilizar a erudição alheia como escada para sua curiosidade.

Não obstante, aquiesce absolutamente, às cegas, com tudo que lhe é passado, e eis que a erudição alheia atinge seu reverso, aprofundando o jovem em sua ignorância: por falta de consulta ao dicionário, jamais saberá que a significação da palavra oferecida pelo professor é errônea, que sua aparente fluência em línguas estrangeiras é semelhante à de um rio repleto de pedregulhos e toras de árvores vedando suas águas. Faltou, naturalmente, o empurrão para a autonomia, para a iniciativa própria, que, por incrível que pareça, começa pelo livro que se abre e se lê solitariamente, sem a mão pesada do professor orientando o juízo.

Pedagogia é um negócio complicado, e por isso que, ao contrário de muita gente, não acredito que basta que os professores dominem conteúdos para serem bons na profissão: amor pelo saber, diz-se por aí, e os mais modernosos acham brega. Falemos, então, da curiosidade, que parece ser uma palavra mais casual e mais ao gosto dos contemporâneos: como despertar a curiosidade do educando? É absolutamente necessário que ela seja despertada. É absolutamente necessário que, ao ouvir sobre Oswald, os alunos busquem saber sobre os demais Andrades (o Mário e o Drummond), que queiram ler Manuel Bandeira e observar os quadros da Tarsila.

Costumo dizer que as pessoas podem chegar aos mesmos pontos por caminhos diversos. Há nisso uma obviedade que acaba por fazer sombra ao que está mais escondido e que não deixa de ter seu valor: o fato de que é possível frequentar um curso de filosofia, ouvir falar em Kant, Montaigne, Habermas, passar pelas teorias mais diversas, estudar lógica e se informar sobre falácias de todo tipo e, ainda assim, permanecer um perfeito filisteu.

(Sempre que uso essa palavra lembro, simultaneamente, de Nietzsche e do filme “A Lula e A Baleia”, que tem a sequência impagável do menino que discute com o pai: “O que é um filisteu? Se é isso que você diz, eu sou um filisteu!”

Mas o fato é que na história há, para além dessa sequência, exemplos do que é uma erudição vazia, menos formadora do que deformadora, típica do filisteísmo. Nietzsche, por sua vez, cunhou o termo “filisteus da cultura estético-histórica”. De quem Nietzsche falava? Dos amantes de citações de poetas e dos Guias de Curiosos ambulantes? Não tenho dúvidas…)

Talvez a razão disso esteja bastante clara no exame do início da viagem. É uma questão de investigar o que os levou a estudar filosofia. Se por um esteticismo (sim, confesso que estou a usar o termo de forma pejorativa…), por uma atração kitsch pelas conversas de bar, receio que se possa dizer que essas são as razões erradas.

Há em andamento, por certos nichos acadêmicos, todo um discurso a respeito de humildade. Mas que é humildade afinal? Não chamar a atenção dos outros para os erros? Curvar sua cabeça a qualquer um que ostente o argumento de autoridade mais eficiente do mundo moderno – o título acadêmico? Acho que humildade não tem nada que ver com isso. Tem mais a ver é com sentar a bunda na cadeira; parar de usar os compartimentos da biblioteca somente como célula de pegação; parar de achar que há mais conhecimento nos comentários fortuitos e eruditos de sala de aula que nos milhares de livros esperando leitura; e então finalmente lê-los… Trata-se de perceber que os meios não são tão fáceis quanto ficar assistindo a uma palestra, sonhando haver meios de pegar erudição pelo ar…

Do I dare to disturb the universe?

September 12, 2008

Outro dia um camarada me disse que estava achando

muito chato esse lance de ter de estudar toda as correntes da economia. Afinal, se já havia sido devidamente provado que uma corrente não servia, por que as pessoas deveriam saber de uma velharia?

Normalmente eu ignoro esse tipo de questão. Minha baixa auto-estima fez com que eu desistisse há anos de conversar certos assuntos com os outros. Contudo, neste fatídico dia, bateu a louca.

Defendi que o conhecimento teórico de uma disciplina – a economia ou o que for – é decididamente importante por causa do caráter reflexivo de tal empreendimento.

Uma pessoa, afinal, só é capaz de algum dia conseguir fazer algo de realmente relevante se puder conceber seu objeto de estudo como algo que, por já ter sido diferente uma vez, também pode ser diferente no futuro. Enfim, a atividade filosófica ainda é maneira mais eficaz de manter as mentes sãs. E, por sãs, quero dizer: inquietas e produtivas.

( Eu achava que era senso comum. E, se fosse, eu não precisaria dizer nada. Se preciso, é porque ainda é algo que deve se infiltrar na cabeça das pessoas. Faço desta minha contribuição. E quem puder fazer a sua fará mais bem do que se estivesse propagando o desenvolvimento sustentável.)

Infelizmente, contra toda a razoabilidade, há quem ainda pense assim.   Esse é o sinal de que novamente se incrustou na sociedade uma espécie de determinismo. Em pleno século XXI, ele volta com toda a força. As pessoas simplesmente se sentem fadadas à insignificância. O único jeito é dizer a elas que

não querer sequer mudar o mundo é coisa de peão.

E peões, via de regra, são mal-remunerados. (Em mordenês elas entendem.)

Cuidado com o ENADE

August 20, 2008

Como pode uma bibliografia de uma disciplina de Lógica do ciclo básico ter mais referências aos pré-socráticos que a Aristóteles?

Currículos alternativos? A UFES faz isso por você.

(E pior que tem gente que ADORA!)

A idade ideal para começar a pensar

August 18, 2008

Semana passada uma professora do segundo período do curso de filosofia, cumprindo a rotina de um começo de disciplina de Psicologia, fez uma pergunta aparentemente normal e inofensiva, sobre as preferências, expectativas e sugestões dos alunos.

Realmente admirável a iniciativa da professora de abrir espaço para a participação ativa dos alunos. Alguns efetivamente fizeram algumas sugestões.

Eu, muito modestamente, sabendo-me curiosa de psicologia e acompanhando o que estudam colegas minhas desse curso, sugeri que ela mostrasse não só como a psicologia poderia alimentar a filosofia, mas também como a filosofia alimentou a psicologia (sabia, de antemão, que amigos meus, estudantes de psicologia, passavam por Foucault, Nietzsche, Deleuze, caras amplamente ignorados pelo departamento de filosofia da minha faculdade).

Não obstante, para a surpresa geral, tanto de muitos alunos como da professora, um dos presentes levantou a voz para objetar a respeito de todo o processo.

Disse, primeiro, que não deveria duvidar da capacidade da professora para elaborar uma ementa. Em seguida, alegou que um aluno de segundo período não estava apto para sugerir coisa alguma, e, além disso, a professora deveria escolher sozinha o que dar na disciplina, uma vez que um aluno de segundo período não teria condições de fazer paralelos entre psicologia e filosofia.

( É, com sorte, quem sabe no doutorado…)

Dos usos da lavagem cerebral

July 1, 2008

“Professor, Kant escreveu algo que preste?”