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A educação de Paulo Freire e pontos de convergência entre a esquerda e o liberalismo político

May 25, 2008

Após ler Paulo Freire, por ver-me completamente de acordo com suas argumentações sobre educação, julguei de primeiríssima ordem discutir em algum lugar algumas possíveis reações às suas idéias.

 

Freire acredita na qualidade de um sistema educativo que incentive alunos a portarem-se de maneira responsável diante da vida e da tomada de opinião. O objetivo da educação, segundo Freire, não é e não deve ser formar uma massa de reprodutores do conhecimento.

 

A despeito do brasileiro Paulo Freire ser um homem mundialmente estudado, e, em certa medida, celebrado, parece que suas idéias entraram por um ouvido e saíram pelo outro, pois tanto docentes quanto discentes demonstram-se todos os dias contentes em meramente “passar ensinamentos”. Ocasionalmente, ainda revestem o mau hábito com argumento etimológico: Aluno é, por definição, aquele que carece de iluminação. É natural, portanto, a relação de subserviência que o discente tem para com seu mestre.

           

Exemplos de que Freire ainda não penetrou na sociedade podem ser colhidos cotidianamente. Está no professor que protesta quando o aluno interrompe seu plano de aula, ou no aluno que, ainda que não decore ensinamentos, satisfaz-se em levantar a bandeira que não é propriamente sua, mas a de outros – dos pais, do professor, da mídia, do método seletivo da universidade federal.

 

Há quem acredite que basta colocar crianças na escola para ser resolvido o problema da educação no país. Contudo, o que as pessoas não vêem é que o ensino – em todos os níveis – se encontra viciado em formatar e juntar rebanho.

 

Parece-me claro que parte dessa negligência advém de outra idéia ainda não difundida. O pensamento criativo e autônomo não é algo que deva se restringir ao artista, ao designer, ao publicitário.

 

Ao cientista, como bem expôs Max Weber em seu hipnotizante texto “A ciência como vocação”, também devem ser demandadas ousadia e criatividade. A própria mobilidade do saber em todo ramo de conhecimento depende diretamente do grau de liberdade em que se encontram seus praticantes. Se, por outro lado, o cientista se torna o técnico-operário, o que reproduz, a ciência também necessariamente se estagna.

           

Por isso Freire, em muitos momentos de seu discurso, posiciona-se politicamente. E aqui se encontra grande parte da minha preocupação.

 

A relação que Freire estabelece entre a educação para a liberdade e sua oposição ao neoliberalismo é, sob um olhar superficial, evidente. Afinal, trata-se realmente de sua preocupação como educador diante da máquina capitalista – que está mais interessada em formar operários que indivíduos – mais interessada no acumular de capital que na humanidade.

 

Apesar de o pensamento liberal irresponsável ter afinidade com uma educação reprodutora, que trate o conhecimento como apertar de botões, não creio que seja benéfico a ninguém exaltar ou descartar Paulo Freire apenas por seu posicionamento político de esquerda.

 

A educação idealizada por Freire pode ser alinhada a vários nomes – pedagogia libertária, da autonomia, da liberdade. Contudo, a liberdade por ele reivindicada não é e não deve ser algo “de esquerda”.

 

Há, na realidade, apenas uma espécie de governo que necessariamente se opõe a essa pedagogia: a do Estado centralizador de Poder e do conhecimento enquanto poder.

 

Por isso meu pedido: que, ao olharem para a obra de Paulo Freire, as pessoas consigam distinguir as diferenças entre sua contribuição à teoria da educação e seu pensamento “de esquerda” – pedido tão ingênuo e esperançoso em tempos de fanatismo político…

           

Não vejo como a liberdade na educação pode se opor ao liberalismo responsável. O liberalismo político deve atacar a censura, a repressão, o abuso do poder. Seus inimigos e os inimigos de Freire, portanto, coincidem.

 

Em grande parte das vezes o pensamento político de esquerda peca por julgar que toda pessoa “de direita” é irresponsável diante da sociedade. Há dificuldade para perceber que há, por outro lado, pessoas que realmente se importam com a humanidade, e que, ainda assim, optam pelo liberalismo.

 

Não é de todo absurdo acusar a direita conservadora de alienada e de ser isenta de preocupação humanística. Mas, nesse caso, examinemos as farinhas e não a deitemos todas no mesmo saco. Nem todo liberal é desinteressado, egoísta e comedor de criancinhas. E os que não são assim, por força da coerência, também se opõem a quaisquer medidas que transformem seres humanos produtores de conhecimento em papagaios de uniforme. O liberalismo preocupado e coerente sabe que há diferença entre a democracia do papel, da teoria, e a da prática – ainda a ser construída.

 

Exame cuidadoso e crítico relembra que as escolas, se fazem parte de uma sociedade democrática, também deveriam ser alicerçadas em atitudes democráticas.

 

Na prática, não há exemplos tão nítidos de autoritarismo e hierarquização do que os que ocorrem no ambiente escolar. Escolas e universidades, em última instância, definem-se como locais em que a palavra e o conhecimento possuem relações de pertencimento a alguém – ao professor.

 

O conhecimento é mostrado como dado já finalizado, e não como algo que ainda precisa de ser construído. O conhecimento educa para a reprodução, e não para a produção – critica Paulo Freire.

 

Sei que os bons o seguem neste aspecto – ou se esforçam por acrescentar a ele contra-argumentos construtivos.

 

A estrutura educativa precisa ser arejada com o quinhão de liberdade que cabe a cada um – tomando a autonomia do discente como elemento fundamental da criatividade e da produção de conhecimento. E isso, em grande parte, independe de posicionamentos políticos.