A Garota Ideal, solidão e outras histórias

October 6, 2009

A Garota Ideal é um filme bonitinho. Mas não se trata de uma comédia romântica, decerto. Por mais que o filme desemboque em um pouco de romance e um pouco de comédia, o núcleo da estória é a agridoce solidão do protagonista, Lars.

Ele supõe ter pleno controle de sua própria solidão. Até mesmo acredita que a prefere. E aí entra a Garota Ideal – uma boneca que imita a forma de uma garota real. É pela boneca que Lars dá vazão às suas mais agradáveis idealizações. Naturalmente, fica claro desde o começo que Bianca é um estrategema elaborado por Lars para lidar com tantas pontas soltas e não-resolvidas (aquelas que todos temos em boa quantidade).

O diferencial do filme talvez seja sua recusa em cair em psicologismos fáceis. O que levou Lars a criar a existência de Bianca é algo que não é apresentado para o observador. Não obstante, a premissa de gosto duvidoso do filme acaba por ser contada de um modo verossímil e elegante. E é por isso mesmo que permanece – ainda que de maneira sutil – a força perturbadora de tudo o que não é imediatamente racionalizável e apreendido pela realidade normatizada.

Apesar da narrativa convencional, A Garota Ideal é capaz de agarrar o telespectador que tem plena consciência de que há muita sombra no que tentamos arduamente iluminar. Pala freudiana? Não chego a tanto. Apenas relembro a imprevisibilidade do homem, capaz de ser tomado violentamente por necessidades – que, no caso de Lars, manifestou-se como delírios, através da namorada-boneca.

***

A temática da solidão me faz lembrar inúmeros filmes. Alguns até mesmo muito em voga por essas bandas. A solidão retratada em A Garota Ideal  não é a mesma de A Garota da Vitrine, pessimista, jamais remediada, apenas um pouco disfarçada, e repleta de bocejo e tédio. Tampouco é capaz de resoluções glamourosas como Lost in Translation. Aqui começa uma viagem minha, possivelmente para além de A Garota Ideal: o filme tem uma visão positiva sobre a solidão, uma vez que mostra como às vezes a solidão é diminuída, quase que inteiramente dissipada.

A solidão persiste como inalienável, necessária de ser carregada por todos nós, mas amenizável, não por um encontro epifânico que ocorre uma vez na vida e outra na morte, mas por situações e gestos corriqueiros – que nos possibilitam a conexão, ainda que breve, com outras pessoas.


Ostentação de espírito

October 3, 2009

Às vezes acho que certas pessoas desandam. Estavam indo bem… Mas, de repente, perdem a sensibilidade em uma esquina… Trocam os pés pelas mãos, confundem a riqueza com a ostentação de espírito etc etc. Espíritos garbosos, envernizados e ofuscantes, com várias citações nas mangas de camisa. Mas, se é certo que é possível prever citações, o que dizer daqueles aos quais falta espontaneidade e, por se especializarem em impressionar as gatinhas, tornam-se repetidores de si próprios, com os mesmos causos sobre a vida de Rimbaud e as mesmas anedotas sobre Hitchcock?

Caso claro disso é que, nos meios acadêmicos (que desafortunadamente tenho de frequentar), é trivial que a busca do conhecimento há muito tenha sido confundida com uma erudição esnobe. O estudante impressionado deveria utilizar a erudição alheia como escada para sua curiosidade.

Não obstante, aquiesce absolutamente, às cegas, com tudo que lhe é passado, e eis que a erudição alheia atinge seu reverso, aprofundando o jovem em sua ignorância: por falta de consulta ao dicionário, jamais saberá que a significação da palavra oferecida pelo professor é errônea, que sua aparente fluência em línguas estrangeiras é semelhante à de um rio repleto de pedregulhos e toras de árvores vedando suas águas. Faltou, naturalmente, o empurrão para a autonomia, para a iniciativa própria, que, por incrível que pareça, começa pelo livro que se abre e se lê solitariamente, sem a mão pesada do professor orientando o juízo.

Pedagogia é um negócio complicado, e por isso que, ao contrário de muita gente, não acredito que basta que os professores dominem conteúdos para serem bons na profissão: amor pelo saber, diz-se por aí, e os mais modernosos acham brega. Falemos, então, da curiosidade, que parece ser uma palavra mais casual e mais ao gosto dos contemporâneos: como despertar a curiosidade do educando? É absolutamente necessário que ela seja despertada. É absolutamente necessário que, ao ouvir sobre Oswald, os alunos busquem saber sobre os demais Andrades (o Mário e o Drummond), que queiram ler Manuel Bandeira e observar os quadros da Tarsila.

Costumo dizer que as pessoas podem chegar aos mesmos pontos por caminhos diversos. Há nisso uma obviedade que acaba por fazer sombra ao que está mais escondido e que não deixa de ter seu valor: o fato de que é possível frequentar um curso de filosofia, ouvir falar em Kant, Montaigne, Habermas, passar pelas teorias mais diversas, estudar lógica e se informar sobre falácias de todo tipo e, ainda assim, permanecer um perfeito filisteu.

(Sempre que uso essa palavra lembro, simultaneamente, de Nietzsche e do filme “A Lula e A Baleia”, que tem a sequência impagável do menino que discute com o pai: “O que é um filisteu? Se é isso que você diz, eu sou um filisteu!”

Mas o fato é que na história há, para além dessa sequência, exemplos do que é uma erudição vazia, menos formadora do que deformadora, típica do filisteísmo. Nietzsche, por sua vez, cunhou o termo “filisteus da cultura estético-histórica”. De quem Nietzsche falava? Dos amantes de citações de poetas e dos Guias de Curiosos ambulantes? Não tenho dúvidas…)

Talvez a razão disso esteja bastante clara no exame do início da viagem. É uma questão de investigar o que os levou a estudar filosofia. Se por um esteticismo (sim, confesso que estou a usar o termo de forma pejorativa…), por uma atração kitsch pelas conversas de bar, receio que se possa dizer que essas são as razões erradas.

Há em andamento, por certos nichos acadêmicos, todo um discurso a respeito de humildade. Mas que é humildade afinal? Não chamar a atenção dos outros para os erros? Curvar sua cabeça a qualquer um que ostente o argumento de autoridade mais eficiente do mundo moderno – o título acadêmico? Acho que humildade não tem nada que ver com isso. Tem mais a ver é com sentar a bunda na cadeira; parar de usar os compartimentos da biblioteca somente como célula de pegação; parar de achar que há mais conhecimento nos comentários fortuitos e eruditos de sala de aula que nos milhares de livros esperando leitura; e então finalmente lê-los… Trata-se de perceber que os meios não são tão fáceis quanto ficar assistindo a uma palestra, sonhando haver meios de pegar erudição pelo ar…


Do I dare to disturb the universe?

September 12, 2008

Outro dia um camarada me disse que estava achando

muito chato esse lance de ter de estudar toda as correntes da economia. Afinal, se já havia sido devidamente provado que uma corrente não servia, por que as pessoas deveriam saber de uma velharia?

Normalmente eu ignoro esse tipo de questão. Minha baixa auto-estima fez com que eu desistisse há anos de conversar certos assuntos com os outros. Contudo, neste fatídico dia, bateu a louca.

Defendi que o conhecimento teórico de uma disciplina – a economia ou o que for – é decididamente importante por causa do caráter reflexivo de tal empreendimento.

Uma pessoa, afinal, só é capaz de algum dia conseguir fazer algo de realmente relevante se puder conceber seu objeto de estudo como algo que, por já ter sido diferente uma vez, também pode ser diferente no futuro. Enfim, a atividade filosófica ainda é maneira mais eficaz de manter as mentes sãs. E, por sãs, quero dizer: inquietas e produtivas.

( Eu achava que era senso comum. E, se fosse, eu não precisaria dizer nada. Se preciso, é porque ainda é algo que deve se infiltrar na cabeça das pessoas. Faço desta minha contribuição. E quem puder fazer a sua fará mais bem do que se estivesse propagando o desenvolvimento sustentável.)

Infelizmente, contra toda a razoabilidade, há quem ainda pense assim.   Esse é o sinal de que novamente se incrustou na sociedade uma espécie de determinismo. Em pleno século XXI, ele volta com toda a força. As pessoas simplesmente se sentem fadadas à insignificância. O único jeito é dizer a elas que

não querer sequer mudar o mundo é coisa de peão.

E peões, via de regra, são mal-remunerados. (Em mordenês elas entendem.)


Formação de gosto

September 7, 2008

O liberalismo político, muito desconfiado, torce o nariz para nomes como Adorno e Horkheimer – responsáveis pela expressão “Indústria Cultural”. Afinal, não há de ser boa coisa uma escola com influência marxista. E ainda de um elitismo tão flagrante! Um abuso à velha e boa noção de livre-arbítrio, possibilidade de escolha, etc.

Não obstante, o liberalismo político, tendo como garoto-propaganda de seus preceitos Dioguinho Mainardi, é o primeiro a dizer Deusmelivre axezeiros; Vital é meu pau; etc.

Ademais, nada mais avesso à liberdade que a formatação precoce e contínua. Ilude-se quem pensa que garotas de 8 anos de idade que rebolaram no programa do Gugu um dia se verão em uma encruzilhada, na qual, por meio de autêntico ato de liberdade, poderão escolher entre o axé ou um outro estilo musical menos comercial.

A escolha, normalmente, está selada de antemão. *suspiro*


O dia em que o Roger Waters se tornou nazifascista

August 24, 2008

O filme The Wall, famoso filme de ópera-rock com trilha de Pink Floyd, contém nítidas referências a toda espécie de autoritaritarismo presente na sociedade: desde professores em colégio a líderes de estados totalitários – incluem-se aí o nazismo e o fascismo.

 A lembrança mais comum dessa crítica empreendida pelo Pink Floyd está na letra de Another brick in the wall. O videoclipe dessa, aliás, ainda é figura relativamente fácil na MTV.

Sei lá bem quais as razões, mas alguém, em um grupo de estudos de Filosofia da Arte, cita o bendito filme – algo sobre como o Pink Floyd e o cinema podem dar péssimos exemplos, como incitar crianças, bem como no filme citado, a quebrar coisas e botar fogo na escola.

*pigarro* “Mas o Pink Floyd, er, estava fazendo uma crítica à história da pedagogia! E a sistemas de ensino que obrigam o aluno a reproduzir continuamente um mesmo pensamento.”

Mas aí alguém, talvez um desses fãzinhos da banda, resolve tirar onda:

Olha, eu acho difícil The Wall fazer crítica a alguma coisa. Quer dizer, é simplesmente a autobiografia do baixista do Pink Floyd!

Ah tá. O baixista do Pink Floyd era nazista?

óbvio para quem viu o filme que The Wall é uma adaptação extremamente livre da vida de Roger Waters para a tela. Tentando pensar o melhor da pessoa que proferiu a frase, vamos imaginar que só disse isso porque leu a respeito numa revista sobre a banda. Senão, sei lá, melhor esquecermos metade da humanidade…)


Filosofia faz iniciação científica?

August 20, 2008

Filosofia faz iniciação científica?

Gente maldosa, tosca e desinformada é capaz de fazer esse tipo de pergunta para você.

Não sem alguma dose de razão (a incopetência de alguns representantes da filosofia que oferecem motivos para tal), duvidam que seja legítima a iniciação científica na filosofia.

Entretanto, o critério utilizado por quem emite a pergunta, se realmente existe, é péssimo.

A maioria dos cursos de humanas têm constante crise existencial e hesitam  ao chamarem seus métodos de científicos. Esse é o caso da história, da psicologia, e, a despeito da ironia que isso possa trazer junto ao nome do curso, é igualmente o caso das ciências sociais. A razão é simples: nenhum desses ramos do conhecimento – passíveis de serem chamados de “ciências do espírito” – se pautam totalmente nos métodos das ciências duras. E graças a Deus, diga-se de passagem.

Em contrapartida, cursos como medicina, enfermagem e engenharia são principalmente ciências aplicadas. Seus esforços não estão voltados no sentido de estimular jovens cientistas, e sim no sentido de remeter ao mercado de trabalho mais técnicos-operários.

A infelicidade do nome escolhido e popularizado na universidade federal não deveria justificar o gracejo tolo (e evidentemente preconceituoso) que dá título à mensagem.

Afinal, se fôssemos absolutamente coerentes, deixávamos apenas química e física (com várias concessões, evidentemente) exibindo a alcunha “iniciação científica”. Porque em nenhuma outra parte vemos ciência mesmo.


Cuidado com o ENADE

August 20, 2008

Como pode uma bibliografia de uma disciplina de Lógica do ciclo básico ter mais referências aos pré-socráticos que a Aristóteles?

Currículos alternativos? A UFES faz isso por você.

(E pior que tem gente que ADORA!)


A idade ideal para começar a pensar

August 18, 2008

Semana passada uma professora do segundo período do curso de filosofia, cumprindo a rotina de um começo de disciplina de Psicologia, fez uma pergunta aparentemente normal e inofensiva, sobre as preferências, expectativas e sugestões dos alunos.

Realmente admirável a iniciativa da professora de abrir espaço para a participação ativa dos alunos. Alguns efetivamente fizeram algumas sugestões.

Eu, muito modestamente, sabendo-me curiosa de psicologia e acompanhando o que estudam colegas minhas desse curso, sugeri que ela mostrasse não só como a psicologia poderia alimentar a filosofia, mas também como a filosofia alimentou a psicologia (sabia, de antemão, que amigos meus, estudantes de psicologia, passavam por Foucault, Nietzsche, Deleuze, caras amplamente ignorados pelo departamento de filosofia da minha faculdade).

Não obstante, para a surpresa geral, tanto de muitos alunos como da professora, um dos presentes levantou a voz para objetar a respeito de todo o processo.

Disse, primeiro, que não deveria duvidar da capacidade da professora para elaborar uma ementa. Em seguida, alegou que um aluno de segundo período não estava apto para sugerir coisa alguma, e, além disso, a professora deveria escolher sozinha o que dar na disciplina, uma vez que um aluno de segundo período não teria condições de fazer paralelos entre psicologia e filosofia.

( É, com sorte, quem sabe no doutorado…)


No creo en las brujas…

July 3, 2008

Nunca pensei que diria um negócio desses, mas tenho um medo reverencial por esse horóscopo. Tenha medo você também:

http://personare.com.br/ctl.php?mdl=Horoscopo&cmd=TelaInicio

(Hoje, por exemplo, não só adivinhou meu humor, como também me repreendeu por causa dele.)


Dos usos da lavagem cerebral

July 1, 2008

“Professor, Kant escreveu algo que preste?”