Do I dare to disturb the universe?

September 12, 2008

Outro dia um camarada me disse que estava achando

muito chato esse lance de ter de estudar toda as correntes da economia. Afinal, se já havia sido devidamente provado que uma corrente não servia, por que as pessoas deveriam saber de uma velharia?

Normalmente eu ignoro esse tipo de questão. Minha baixa auto-estima fez com que eu desistisse há anos de conversar certos assuntos com os outros. Contudo, neste fatídico dia, bateu a louca.

Defendi que o conhecimento teórico de uma disciplina – a economia ou o que for – é decididamente importante por causa do caráter reflexivo de tal empreendimento.

Uma pessoa, afinal, só é capaz de algum dia conseguir fazer algo de realmente relevante se puder conceber seu objeto de estudo como algo que, por já ter sido diferente uma vez, também pode ser diferente no futuro. Enfim, a atividade filosófica ainda é maneira mais eficaz de manter as mentes sãs. E, por sãs, quero dizer: inquietas e produtivas.

( Eu achava que era senso comum. E, se fosse, eu não precisaria dizer nada. Se preciso, é porque ainda é algo que deve se infiltrar na cabeça das pessoas. Faço desta minha contribuição. E quem puder fazer a sua fará mais bem do que se estivesse propagando o desenvolvimento sustentável.)

Infelizmente, contra toda a razoabilidade, há quem ainda pense assim.   Esse é o sinal de que novamente se incrustou na sociedade uma espécie de determinismo. Em pleno século XXI, ele volta com toda a força. As pessoas simplesmente se sentem fadadas à insignificância. O único jeito é dizer a elas que

não querer sequer mudar o mundo é coisa de peão.

E peões, via de regra, são mal-remunerados. (Em mordenês elas entendem.)


Formação de gosto

September 7, 2008

O liberalismo político, muito desconfiado, torce o nariz para nomes como Adorno e Horkheimer – responsáveis pela expressão “Indústria Cultural”. Afinal, não há de ser boa coisa uma escola com influência marxista. E ainda de um elitismo tão flagrante! Um abuso à velha e boa noção de livre-arbítrio, possibilidade de escolha, etc.

Não obstante, o liberalismo político, tendo como garoto-propaganda de seus preceitos Dioguinho Mainardi, é o primeiro a dizer Deusmelivre axezeiros; Vital é meu pau; etc.

Ademais, nada mais avesso à liberdade que a formatação precoce e contínua. Ilude-se quem pensa que garotas de 8 anos de idade que rebolaram no programa do Gugu um dia se verão em uma encruzilhada, na qual, por meio de autêntico ato de liberdade, poderão escolher entre o axé ou um outro estilo musical menos comercial.

A escolha, normalmente, está selada de antemão. *suspiro*


O dia em que o Roger Waters se tornou nazi-fascista

August 24, 2008

O filme The Wall, famoso filme de ópera-rock com trilha de Pink Floyd, contém nítidas referências a toda espécie de autoritaritarismo presente na sociedade: desde professores em colégio a líderes de estados totalitários – incluem-se aí o nazismo e o fascismo.

 A lembrança mais comum dessa crítica empreendida pelo Pink Floyd está na letra de Another brick in the wall. O videoclipe dessa, aliás, ainda é figura relativamente fácil na MTV.

Sei lá bem quais as razões, mas alguém, em um grupo de estudos de Filosofia da Arte, cita o bendito filme – algo sobre como o Pink Floyd e o cinema podem dar péssimos exemplos, como incitar crianças, bem como no filme citado, a quebrar coisas e botar fogo na escola.

*pigarro* “Mas o Pink Floyd, er, estava fazendo uma crítica à história da pedagogia! E a sistemas de ensino que obrigam o aluno a reproduzir continuamente um mesmo pensamento.”

Mas aí alguém, talvez um desses fãnzinhos da banda, resolve tirar onda:

Olha, eu acho difícil The Wall fazer crítica a alguma coisa. Quer dizer, é simplesmente a autobiografia do baixista do Pink Floyd!

Ah tá. O baixista do Pink Floyd era nazista?

óbvio para quem viu o filme que The Wall é uma adaptação extremamente livre da vida de Roger Waters para a tela. Tentando pensar o melhor da pessoa que proferiu a frase, vamos imaginar que só disse isso porque leu a respeito numa revista sobre a banda. Senão, sei lá, melhor esquecermos metade da humanidade…)


Filosofia faz iniciação científica?

August 20, 2008

Filosofia faz iniciação científica?

Gente maldosa, tosca e desinformada é capaz de fazer esse tipo de pergunta para você.

Não sem alguma dose de razão (a incopetência de alguns representantes da filosofia que oferecem motivos para tal), duvidam que seja legítima a iniciação científica na filosofia.

Entretanto, o critério utilizado por quem emite a pergunta, se realmente existe, é péssimo.

A maioria dos cursos de humanas têm constante crise existencial e hesitam  ao chamarem seus métodos de científicos. Esse é o caso da história, da psicologia, e, a despeito da ironia que isso possa trazer junto ao nome do curso, é igualmente o caso das ciências sociais. A razão é simples: nenhum desses ramos do conhecimento – passíveis de serem chamados de “ciências do espírito” – se pautam totalmente nos métodos das ciências duras. E graças a Deus, diga-se de passagem.

Em contrapartida, cursos como medicina, enfermagem e engenharia são principalmente ciências aplicadas. Seus esforços não estão voltados no sentido de estimular jovens cientistas, e sim no sentido de remeter ao mercado de trabalho mais técnicos-operários.

A infelicidade do nome escolhido e popularizado na universidade federal não deveria justificar o gracejo tolo (e evidentemente preconceituoso) que dá título à mensagem.

Afinal, se fôssemos absolutamente coerentes, deixávamos apenas química e física (com várias concessões, evidentemente) exibindo a alcunha “iniciação científica”. Porque em nenhuma outra parte vemos ciência mesmo.


Cuidado com o ENADE

August 20, 2008

Como pode uma bibliografia de uma disciplina de Lógica do ciclo básico ter mais referências aos pré-socráticos que a Aristóteles?

Currículos alternativos? A UFES faz isso por você.

(E pior que tem gente que ADORA!)


A idade ideal para começar a pensar

August 18, 2008

Semana passada uma professora do segundo período do curso de filosofia, cumprindo a rotina de um começo de disciplina de Psicologia, fez uma pergunta aparentemente normal e inofensiva, sobre as preferências, expectativas e sugestões dos alunos.

Realmente admirável a iniciativa da professora de abrir espaço para a participação ativa dos alunos. Alguns efetivamente fizeram algumas sugestões.

Eu, muito modestamente, sabendo-me curiosa de psicologia e acompanhando o que estudam colegas minhas desse curso, sugeri que ela mostrasse não só como a psicologia poderia alimentar a filosofia, mas também como a filosofia alimentou a psicologia (sabia, de antemão, que amigos meus, estudantes de psicologia, passavam por Foucault, Nietzsche, Deleuze, caras amplamente ignorados pelo departamento de filosofia da minha faculdade).

Não obstante, para a surpresa geral, tanto de muitos alunos como da professora, um dos presentes levantou a voz para objetar a respeito de todo o processo.

Disse, primeiro, que não deveria duvidar da capacidade da professora para elaborar uma ementa. Em seguida, alegou que um aluno de segundo período não estava apto para sugerir coisa alguma, e, além disso, a professora deveria escolher sozinha o que dar na disciplina, uma vez que um aluno de segundo período não teria condições de fazer paralelos entre psicologia e filosofia.

( É, com sorte, quem sabe no doutorado…)


No creo en las brujas…

July 3, 2008

Nunca pensei que diria um negócio desses, mas tenho um medo reverecial por esse horóscopo. Tenha medo você também:

http://personare.com.br/ctl.php?mdl=Horoscopo&cmd=TelaInicio

(Hoje, por exemplo, não só adivinhou meu humor, como também me repreendeu por causa dele.)


Dos usos da lavagem cerebral

July 1, 2008

“Professor, Kant escreveu algo que preste?”


A pala em História da Filosofia Antiga

July 1, 2008

Aluno pergunta à professora qual seria a diferença entre a tradução “mito” e “alegoria” no muito famoso “Mito da Caverna”, de Platão. Ele se justifica dizendo o pouco que entendeu em outra disciplina sobre o conceito de “mito” (foi bem pouco mesmo, vos digo como testemunha ocular, e, ainda assim, o pouco conceituou o mito como uma visão cosmogônica derivada da religião ou da cultura – ou seja, fenômeno “coletivo”).

Professora diz que, embora mito seja regularmente preterido em relação à alegoria por alguns tradutores, ela própria não via nada de errado em usar a palavra “mito” – aliás, achava esta uma tradução mais precisa, pois “alegoria” não dava conta de explicitar as intenções de Platão.

A explicação: Por mito, entendemos uma figura que sugere, simbolicamente, de maneira não-literal e não-discursiva, e que possui força em si – sem carecer de mais explicações.

Após essa concepção extremamente pobre e vaga do que é um mito (que concepção é essa? De algum antropólogo desconhecido?), só me resta perguntar às pessoas sensatas: Qual a definição de alegoria?

Adendo 1: Para completar, duas semana para o período acabar e nada  da obra insignificante de Aristóteles. Uhul!

Adendo 2: Os pós-modernistas não me dão um tempo.

 


A riqueza de espírito

June 15, 2008

Minha mãe apresentando a um de seus colegas de trabalho na festa, e ele, talvez já bêbado:

“Ah, a filósofa! Leia muito Sócrates e Platão, viu! Eles são excelentes filósofos.”

(Sim, míseros 10 centavos por vez e seria vasta a minha riqueza…)